A La Liga gastou 748 milhões de euros no mercado de transferências este verão, enquanto a Premier League chegou aos 4 mil milhões de euros. Isto traduz-se num mercado profundamente desigual. A Premier League opera sob um modelo de perdas permanentes que alimenta a inflação do mercado.

Real Madrid e Barcelona são os únicos dois clubes espanhóis dentro do top 10 em despesas no mercado de transferências. O gasto combinado de ambos equivale praticamente ao do recém-promovido Ipswich Town da Premier League. É justo dizer que os clubes ingleses desequilibraram completamente o mercado.
O fecho do mercado de verão voltou a expor a realidade “a duas velocidades” do futebol espanhol. A La Liga ficou dividida em dois mundos. De um lado estão Real Madrid, Barcelona e Atlético de Madrid, que ainda dispõem de músculo financeiro para gastar à grande no panorama europeu. Do outro lado estão quase todos os restantes clubes da La Liga, obrigados a trabalhar com orçamentos apertados. Têm de vender antes de comprar, à procura de empréstimos, transferências a custo zero e oportunidades de última hora para fechar contratações de forma extremamente contida.
Entre estes dois mundos surge uma exceção inesperada: o RC Deportivo da Corunha. Impulsionado pelo investimento do Banco Abanca, o clube atreve-se a correr riscos que a maioria dos outros clubes da La Liga não pode, ou não quer, assumir. Nas horas finais do mercado, jogadores como Dani Ceballos, Marc Casadó e José Giménez tornaram-se alvos centrais.
Os dados contam uma história mais clara do que qualquer transferência individual. Os clubes espanhóis gastaram 748 milhões de euros este verão, um valor que coloca a La Liga como a quarta liga que mais gastou no mundo, embora fique muito aquém do investimento de quase 4 mil milhões de euros da Premier League. Além disso, o gasto da La Liga fica atrás da Serie A e situa-se ligeiramente abaixo do da Bundesliga.
A diferença em relação a Inglaterra já não se limita aos clubes de elite; representa uma disparidade estrutural em todos os patamares do ranking das ligas.
O Manchester City lidera a tabela global de despesas em transferências, e os sete clubes que mais investiram pertencem todos à Premier League. O Real Madrid surge em oitavo e o Barcelona em décimo. Entre ambos está o recém-promovido Ipswich Town, que investiu cerca de 200 milhões de euros este verão, uma quantia inconcebível no futebol espanhol.
Javier Gómez Molina, diretor-geral corporativo da La Liga, disse ao El País: “O modelo dos clubes espanhóis gira em torno das academias de formação, enquanto a Premier League segue um modelo de perdas. Se as receitas da Premier League são o dobro das da La Liga ou da Bundesliga, quando investimos 800 milhões, eles deveriam investir cerca de 1,5 mil milhões.”
“Mas, na realidade, gastaram perto de 4 mil milhões. Isso significa que este dinheiro não é receita que tenham gerado por si próprios; vem diretamente de injeções de capital dos acionistas. Este modelo de perdas permanentes cria inflação em todo o setor.”
Real Madrid e Barcelona tentaram competir neste contexto. Yan Diomande, contratado pelo Real Madrid por 125 milhões de euros, é a única contratação de verão da La Liga a aparecer na lista global dos dez negócios mais caros. Entretanto, a mudança de Enzo para o Manchester City é o negócio de maior valor associado à La Liga, avaliado em mais de 150 milhões de euros.
Alargando a lista às 45 transferências mais caras do mundo, apenas quatro contratações foram realizadas por clubes da La Liga: Yan Diomande, Anthony Gordon, Rodri e Marc Cucurella.

Apesar de o Atlético de Madrid ter mantido Julián Álvarez, os seus principais investimentos foram a contratação de Morten Hjulmand por 40 milhões de euros, a chegada de Kang-in Lee, além da aquisição por empréstimo, ao cair do pano, de Jonathan David, proveniente da Juventus. O investimento total do Atlético ascendeu a 123 milhões de euros, o que o coloca apenas no 24.º lugar a nível mundial.
A partir daí abre-se um abismo. O Real Betis, que assegurou Dani Ceballos a custo zero já perto do fecho do mercado, é o clube seguinte da La Liga na lista, com 30 milhões de euros de investimento, ocupando o 77.º lugar mundial.
Seguem-se o RC Deportivo da Corunha, no 90.º posto (26 milhões de euros), e o Racing Santander, em 101.º (20,5 milhões de euros, com a contratação de Pablo García ao Real Betis).
Apenas seis clubes da La Liga registaram gastos em transferências acima dos 20 milhões de euros. A maioria dos clubes da La Liga apresenta um saldo líquido positivo em transferências ou um investimento líquido que mal chega aos 10 milhões de euros, refletindo um corte extremo nos custos.
O RC Deportivo da Corunha representa um caso especial, como explicou Javier Gómez Molina: “O principal acionista efetuou um aumento de capital, tal como o Atlético de Madrid. São operações públicas, e estão a aplicar esses fundos. Esta capacidade de contratação excede aquilo que, normalmente, as suas contas de resultados permitiriam.”
Leo Román, Pierre-Emerick Aubameyang, Adama Traoré, além das chegadas tardias de Marc Casadó e José Giménez, compõem as aquisições oportunas do RC Deportivo da Corunha no fecho do mercado.
O Athletic Bilbao não pagou qualquer verba de transferência. O Málaga investiu apenas 300 mil euros, e outros sete clubes gastaram menos de 10 milhões de euros.
Empréstimos, transferências a custo zero, vendas de jogadores, percentagens de futuras vendas e uma paciência imensa até ao dia limite: estas são as regras de sobrevivência para a maioria das equipas da La Liga.
As comparações com outras ligas europeias reforçam ainda mais a sensação de isolamento da La Liga. Na Serie A, 15 clubes gastaram mais de 20 milhões de euros, sendo que sete também apresentaram um investimento líquido acima desse patamar. Dez clubes da Bundesliga ultrapassaram os 20 milhões de euros em gastos; nove clubes da Ligue 1 atingiram esse valor.
Até a EFL Championship, segunda divisão inglesa, tem nove clubes acima desse patamar. A Saudi Pro League e a Süper Lig turca têm cinco clubes cada uma a cumprir o critério, enquanto a La Liga só pode contar seis.
A La Liga continua a investir e mantém-se entre as maiores competições do mundo, mas enfrenta dificuldades financeiras.
O mercado de transferências espanhol ficou dividido em dois: as contratações de estrelas pertencem aos gigantes, um pequeno número de clubes arrojados assume riscos calculados, e praticamente todas as restantes equipas têm de operar com a calculadora financeira bem presente em mãos.




